Preconceito a respeito das obras de Dilermando Reis?

Perguntas e dúvidas sobre interpretações de um compositor/peça
Mac

Re: Preconceito a respeito das obras de Dilermando Reis?

Mensagem por Mac » Qua 05 Nov 2008, 20:10

Segundo a biografia escrita por Genésio Nogueira, a música que o Dilermando fez dedicada ao Juscelino foi "Nuvens Que Passam" por ocasião da cassação de seus direitos políticos em 1964 - "Dr. Sabe Tudo" foi dedicada a Othon Salleiro .
"Nuvens Que Passam" está no LP "Recordações", de 1967.

Quando comecei a aprender violão, tudo o que eu queria era tocar igual ao Dilermando. Nunca senti qualquer preconceito contra ele, e olha que já conheci muitos professores e músicos clássicos. A crítica que mais ouvi contra o Dilermando Reis foi que ele fazia gravações com dois violões e não esclarecia isso bem nos discos (o que me parece que procede, em parte ...). Abraços

Léo Beschizza

Re: Preconceito a respeito das obras de Dilermando Reis?

Mensagem por Léo Beschizza » Dom 09 Nov 2008, 19:29

Olá Mac
Não ficou bem clara a sua colocação quanto às gravações de Dilermando Reis. O que você quiz dizer é que ele usava o recurso do playback, ou seja, gravava uma vez e depois gravava outra vez por cima da primeira ?
Alguns intérpretes utilizam esse recurso proporcionando um dueto ou um arranjo sobreposto, mas quando o fazem não escondem esse fato.
Já Paulinho Nogueira fazia o contra ponto sem utilizar o playback, como no caso de Samba em Prelúdio onde ele faz as duas vozes simultaneamente tocando de uma só vez, arranjo exclusivo dele que com o passar do tempo foi repetido por muitos outros instrumentistas.
Uma abraço a todos.

Mac

Re: Preconceito a respeito das obras de Dilermando Reis?

Mensagem por Mac » Seg 10 Nov 2008, 03:00

Léo
Não me referi a "playback" (acho que esse recurso não estava disponível na época).

A crítica que se fazia ao Dilermando Reis era de que ele gravava discos de violão-solo, mas na verdade havia, muitas vezes, a participação de outros violonistas (Meira e Dino, principalmente) sem o devido esclarecimento. Isso é verdadeiro, e dá para se observar em várias músicas: "Apanhei-te Cavaquinho" (E. Nazareth) foi gravado com dois violões, no mínimo (provavelmente o Dino 7 Cordas). "Magoado" (Dilermando) também. "Dr. Sabe-Tudo" (Dilermando) foi gravado reconhecidamente com a participação do Meira, e assim várias outras músicas, inclusive muitos arranjos de músicas do Pixinguinha que ele fez e gravou com acompanhamento do Dino, sem qualquer menção ao fato nos discos. A partitura de "Magoado", do próprio Dilermando, requer a participação de um segundo violão (no início da segunda parte, onde tem aquelas escalas em terças - a gravação que tenho tem, sem dúvida alguma, dois violões).

O problema aqui é que os críticos insinuavam que o Dilermando fazia o ouvinte pensar que ele tocava solo - o que não me parece exatamente verdadeiro, já que as participações dos segundos violões (e até mais) eram muito óbvias para o ouvinte. A biografia dele, escrita pelo Genésio Nogueira, atribui esses fatos à falta de cuidado da gravadora (Continental) com a produção dos discos - o que acho uma explicação bastante razoável, tendo em vista a óbvia existência de acompanhamento em muitas gravações.

Da minha parte, assisti o Dilermando tocar ao vivo num evento aqui no RJ no início da década de 1970, ele estava sozinho, e "deu show". O homem era uma "fera" no instrumento e um compositor excepcional.

Abraços

Léo Beschizza

Re: Preconceito a respeito das obras de Dilermando Reis?

Mensagem por Léo Beschizza » Seg 10 Nov 2008, 11:41

Olá Mac
Entendi agora sua observação. Mas acho também que Dilermando não tinha a intenção de enganar os ouvintes, mesmo porque seus apreciadores entendiam de música assim como você, e perceberiam de uma forma ou de outra que havia outro violão na gravação, acredito que essa omissão foi por parte da gravadora que talvez quizesse se livrar do pagamento de direito autorais ao segundo violão.
Eu não tive o privilégio de assistí-lo ao vivo, somente em vídeos e lógico ouvindo nos antigos LPs da época. Bons tempos aqueles né ?
Ouvia Dilermando também em alguns programas de rádio na época, mas hoje tem um monte de porcaria que toca nas rádios que dá até "náuseas", como o mundo mudou.
Uma abraço a todos.

Mac

Re: Preconceito a respeito das obras de Dilermando Reis?

Mensagem por Mac » Seg 10 Nov 2008, 15:11

Léo

Eu também não acredito que ele quisesse enganar. E nunca me senti enganado. A questão que colocavam era que não se poderia saber se as performances de violão solo do Dilermando eram mesmo solo ou não. Havia professores de violão (inclusive aconteceu comigo em 1983) que quando o aluno queria estudar uma peça do Dilermando, dizia: "ah, mas não pode comparar com o disco, porque lá são dois violões..." - o que era absolutamente errado, pois tirei várias músicas que o Dilermando tocava (Saudades de Matão, Sons de Carrilhões, Tempo de Criança, etc.) e era tudo muito parecido com o disco.

Houve uma época (1985) em que eu estudava violão em grupo na casa do Claudionor Cruz, em Pilares (RJ) (a gente chegava lá às 6h da manhã!!! - e já havia gente tocando...), e ele sempre ficava aborrecido com o negócio que falavam dos 2 violões do Dilermando, que era um cara que ele admirava muito. Ele sempre dizia que as gravadoras não tinham cuidado algum com os artistas.

Uma pena é que na época que assisti o Dilermando tocar (1970/71) eu não dei tanta importância. Ficou a imagem, porque o homem tocava muito bem, mas só fui dar importância muitos anos depois. Eu era muito mais ligado em MPB e Bossa Nova naquela época. A mesma coisa aconteceu com relação ao Pixinguinha. Eu tinha 14/15 anos e trabalhava no centro do Rio - vi o Pixinguinha uma meia dúzia de vezes ali pela rua do Ouvidor e no Edifício Central. Havia sempre uma pequena aglomeração em torno dele, e as pessoas falavam: "é o Pixinguinha, é o Pixinguinha". E eu ficava ali admirando a figura, sem saber exatamente do que tratava (eu só conhecia "Carinhoso"- ah, eu ainda estava longe do choro e da música instrumental naquela época). Se soubesse o que estava vendo, tinha beijado a mão dele pedido algo para guardar de recordação, um autógrafo, uma foto, sei lá...

Abraços