A História Mitológica da Música

Diogo Benvenutti

Mensagem por Diogo Benvenutti » Dom 26 Nov 2006, 12:36

Há um livro muito interessante chamado "Música e simbolismo: ressonancias cosmicas dos instrumentos e das obras" que engloba a questão da mitologia nas concepções musicais, em obras e também nos instrumentos. É um material muito interessante. O nome do autor é Roger Cotte.

vickarasu

Mensagem por vickarasu » Ter 12 Dez 2006, 16:13

nossa, eu sei que nom tem (quase) nada a ver, mas me lembrei da animação da Disney, "Hércules", que retratava as divas.Na minha opinião, a parte mais engraçada e espôntanea do desengo inteiro ( depois do Hades, é claro, esse ninguém passa!).

ah, obrigado por adicionar algo de útil à minha cultura ^^

:)

Marcelo Cavalcanti
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Mensagem por Marcelo Cavalcanti » Ter 16 Jan 2007, 12:41

Um caso interessante sobre o poder da música está em um relato chinês que citarei a seguir:

"Todos os anos, no segundo mês, poder-se-ia encontrar o imperador Shi Shun (2255-2206 a.C.) jornadeando para o Leste, a fim de passar revista ao seu reino e certificar-se de que tudo estava em ordem no imenso território. Entretanto, não o fazia verificando os livros de contabilidade das diferentes regiões. Nem observando o modo de vida da população, nem recebendo petições dos súditos. E tampouco entrevistando os funcionários regionais em posição de mando. Não, ele não empregava nenhum desses métodos, pois na China antiga se supunha haver um método muito mais revelador, acurado e científico de averiguar o estado da nação. De acordo com o antigo texto chinês, Shu King, o imperador Shi Shun percorria os diferentes territórios e... experimentava as alturas exatas das notas musicais de cada região!

De volta ao palácio, se desejasse controlar a eficiência do governo central, que fazia ele? Buscava pareceres de entendidos em traçar normas de viver? Examinava a economia ou o estado da opinião pública?

Embora o soberano conhecesse todos os métodos citados acima, e até utilizá-los em determinadas ocasiões, o mais importante, cria ele, era ouvir e verificar as cinco notas da antiga escala musical chinesa! Mandava vir à sua presença os oito tipos de instrumentos musicais conhecidos no país e ordenava que fossem tocados por músicos da região visitada. Em seguida, ouvia as canções populares locais e as árias cantadas na própria corte, verificando se toda essa música estava em perfeita correspondência com os cinco tons.

Superstição primitiva? O imperador Shun, por certo, não acreditava nisso. Consoante a filosofia dos antigos chineses, a música era a base de tudo! Eles acreditavam, em particular, que todas as civilizações se afeiçoavam e se moldavam de acordo com o tipo de música que nelas se executasse. A música de determinada região era melancólica, romântica? Nesse caso, o próprio povo seria romântico. Era vigorosa e militar? Então, os vizinhos deveriam se acautelar. Além disso, uma civilização permaneceria estável e inalterada enquanto a música daquela localidade permanecesse inalterada. Mas, mudar o estilo da música ouvida pelo povo levaria inevitavelmente a uma mudança do próprio estilo de vida.

Se o imperador Shun, em todas as suas andanças pelo reino, descobrisse que os instrumentos dos diferentes territórios estavam afinados de maneira diferente, chegaria à conclusão, que ele já teria previsto, de que os territórios logo começariam a diferir uns dos outros (se é que esse proceso já não teria começado). Poderiam até perder a unidade e principiar a digladiar-se, a menos que a afinação fosse imediatamente corrigida e uniformizada em todos os lugares. E se a música que ele ouvisse executada nas aldeias tivesse desatado a tornar-se vulgar e imoral, não duvidaria o imperador de que a própria imoralidade se estenderia pela nação, a menos que se fizesse alguma coisa para corrigir a música daquele lugar!"

Interessante, não? Mas o método era extremamente funcional e mostrava o respeito e a sabedoria com que esse povo tratava a sua música. Conforme o ponto de vista dos antigos chineses, as notas de toda música continham uma essência de poder transcendente. O seu objetivo não era de entretenimento ou de agradar os sentidos, mas de transmitir verdades eternas e influir no caráter do homem visando torná-lo melhor. Acho que Bach, de forma consciente ou não, sabia bem disso, pois sua música quase sempre esteve a serviço do Divino...

Espero ter contribuído um pouco com o tópico.

Bruno Madeira
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Mensagem por Bruno Madeira » Ter 16 Jan 2007, 17:34

Marcelo Cavalcanti escreveu:Superstição primitiva? O imperador Shun, por certo, não acreditava nisso. Consoante a filosofia dos antigos chineses, a música era a base de tudo! Eles acreditavam, em particular, que todas as civilizações se afeiçoavam e se moldavam de acordo com o tipo de música que nelas se executasse. A música de determinada região era melancólica, romântica? Nesse caso, o próprio povo seria romântico. Era vigorosa e militar? Então, os vizinhos deveriam se acautelar. Além disso, uma civilização permaneceria estável e inalterada enquanto a música daquela localidade permanecesse inalterada. Mas, mudar o estilo da música ouvida pelo povo levaria inevitavelmente a uma mudança do próprio estilo de vida.
Essa propriedade que a música tem de transformar o ambiente e os sentimentos de acordo com seu caráter é definida por Platão também, que a chama de ethos. Músicas de caráter militar, no modo dórico, eram incentivo para os soldados irem para a batalha com garra, determinação. No modo frígio, músicas mais românticas, ideais para conquistas amorosas.

É interessante isso, pois independente da cultura, seja chinesa ou grega, a mesma conclusão é tirada. A música realmente tem o poder de modificar os sentimentos humanos.

Alexandre Ribeiro de Oliv

Mensagem por Alexandre Ribeiro de Oliv » Qua 17 Jan 2007, 22:20

Vale lembrar que modo na grécia antiga, não tem o mesmo significado que damos a eles hoje, em outras palavras, não tem nada a ver nosso modo dório com o que os gregos chamavam de modo dorio.

Outra lenda interessante é a de Apolo, que amarrou cordas de tripa em um casco de tartaruga após ouvir o som produzido ao tocar a corda de um arco (de arco e flecha).

Marcelo Cavalcanti
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Mensagem por Marcelo Cavalcanti » Sáb 03 Fev 2007, 17:22

Isso só mostra o poder que a música tem sobre todo ser vivo, não só o humano!

Basta ver resultados de vários estudos divulgados sobre a influência da música clássica sobre rebanhos bovinos leiteiros (aumenta a produção láctea e diminui o estresse motivado pelo processo mecânico da retirada do leite) e até de vegetais (árvores frutíferas e espécimes para jardinagem já demonstraram sofrer influência positiva da ação da música).

O lado negativo também existe, e é bastante forte! É só ver o efeito da freqüência do bate-estaca eletrônico sobre os admiradores desse "estilo musical". Os caras só fazem pular e se encher de ecstasy, que é para poder suportar a maratona de bpms e repetições "supercriativas" dos grandes "mestres djs", compositores de criatividade harmônica
transbordante, de dar inveja àqueles "pobres coitados" do Bach, Beethoven e Mozart!

Pois é, cabe a nós, amantes da música, escolher qual bandeira devemos defender...

E VIVA BACH!!!

felippesilva

Mensagem por felippesilva » Sex 09 Fev 2007, 22:11

nossa valeu, muito bom =)

Paulinho Teixeira
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Mensagem por Paulinho Teixeira » Ter 20 Fev 2007, 19:06

Bom eu como evangélico, logo leitor de biblia posso dizer a vcs que a biblia relata que o primeiro músico foi jubal que era neto de caim(isso mesmo aquele que matou abel) diz assim e jubal,e este foi pai de todos que tocam harpa e órgão, a cultura hebréia tem essa influência dos relatos musicais da biblia e nós como cristãos herdamos alguma parte disso inclusive as notas musicais que conhecemos foram resultado de um monge católico que ensinava seus alunos e para decorarem as notas(que anteriormente não possuiam nome) mandou que decorassem através de...(ai que vem a controvérsia historica) uns dizem que era uma oração e outros dizem que eram alguns versiculos biblicos e as primeiras silabas desses versiculos em latim eram ut-re-mi-fa-sol-la mais tarde mudaram ut para do que estava ligado a palavra do latim dominus(ligado a Deus dominio) e ai depois eu não lembro bem como o si...e ai parece que as cifras já existiam na cultura germanica, inglesa saxonica ...e começava na altura da nota lá e não do dó por isso que alfabeticamente se começa pelo lá(A) e não pelo dó(C)

Paulinho Teixeira
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Mensagem por Paulinho Teixeira » Ter 20 Fev 2007, 19:10

Desculpe escrever de novo mais por falar em grécia eu não sei se tem a ver com o modo eólio atual mais existia um instrumento na grécia chamado eólicas semelhante ao saltério e todas as cordas dele eram afinados no mesmo tom(que eu não sei qual é) e ele era deixado em cima de lugares altos eu acho para que o vento vibrasse suas cordas por isso eólica (eolos= vento em grego) .

Gustavo Tadeu
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Mensagem por Gustavo Tadeu » Qui 29 Mar 2007, 13:02

Obrigado pelo conhecimento intregago sobre a mitologia grega que você passou.

André LM
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Mensagem por André LM » Qui 29 Mar 2007, 15:45

O monge beneditino q deu nome às seis notas da escala foi Guido D'arezzo (c. 990 - c. 1050) no séc. XI, tiradas das sílabas iniciais de cada verso de uma oração à São João Batista. Mas, no método de Guido, essas sílabas são apenas acrescentadas às letras para precisar a oitava e seu aspecto.
Antes disso, Hucbaldo (c. 840-930) monge de Saint-Amand - pesquisando Boécio (c. 480-526) que tinha feito um tratato de união entre a tradição musical pitagórica (grega) e a idade média (apesar de mal interpretado) - já havia utilizado letras na escrita musical (notação alfabética) para precisar a altura dos sons.


Mas isso foi história "real", e não mitologia.


Espero ter ajudado.

Irious
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Mensagem por Irious » Sáb 31 Mar 2007, 00:05

Informações que motivam os novos e curiosos violonistas à se apegar(e pequisar!)cada vez mais sobre a música e sua história.
Obrigado!Excelente tópico!

Marcelo Cavalcanti
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Mensagem por Marcelo Cavalcanti » Sáb 31 Mar 2007, 14:06

Bem, consegui "garimpar" mais algumas informações sobre Guido D'Arezzo:

Guido D'Arezzo (992 — 1050) foi um monge italiano e regente do coro da Catedral de Arezzo (Toscana).

Foi o criador da pauta musical e batizou as notas musicais com os nomes que conhecemos hoje: ut (que posteriormente será o dó), ré, mi, fá, sol, lá e san (que posteriormente será o si), baseando-se em um texto sagrado em latim, cantado pelas crianças do coral para que São João os protegesse da rouquidão:

Utqueant laxis
Resonare fibris
Mira gestorum
Famuli tuorum
Solve polluti
Labi reatum
Sancte Ioannes

Que significa:

"Para que nós, teus servos,
possamos elogiar claramente
o milagre e a força dos teus atos,
absolve nossos lábios impuros, São João"

O sistema de Guido d'Arezzo sofreu algumas pequenas transformações no decorrer do tempo: a nota Ut passou a ser chamada de Dó e a nota San passou a ser chamada de Si (por serem as iniciais em latim de São João, Sancte Ioannes), enquanto que a pauta ganhou linhas e espaços a mais, embora sua essência continue a mesma.

Espero ter contribuído...

Um abraço a todos! E viva a música! E viva Bach!

Paulinho Teixeira
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Mensagem por Paulinho Teixeira » Dom 08 Abr 2007, 01:25

Obrigado pessoal realmente eu esqueci-me do assunto do tópico que era sobre mitologia e passei a falar de história mas foi bom por que me complementaram coisas pois já havia esquecido o nome do monge e tal muito obrigado...mas tem outra coisa recentemente em uma aula de teoria musical a professora disse que na verdade se começaria pelo lá(A) por que os pianos tradicionais começavam pela nota lá e não pelo dó...

André LM
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Mensagem por André LM » Seg 09 Abr 2007, 00:57

A sua professora está totalmente e perigosamente errada paulinho...

Essas letras foram acrescentadas aos neumas (signos colocados acima das sílabas do texto que sugeriam o movimento da melodia para ajudar a memória dos cantores) com a idéia de se designar certos sons, segundo o princípio herdado dos gregos e de Boécio, mas consideravelmente simplificado (tal como permaneceu em uso na Inglaterra e na Alemanha). Antes tentaram utilizar letras como a (altius), i (inferius), e (equaliter), t (tenere), etc, mas eram muito imprecisas.

Espero ter ajudado...