Violão x Alaúde

Luis Gontarski
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Mensagem por Luis Gontarski » Ter 23 Jan 2007, 14:01

amigos
Fiz um curso sobre musica antiga a pouco tempo. Temos que deixar as coisas bem claras.
1o. Violão e Alaúde nem mesmo são da mesma família. Quanto mais querer comparar tecnicas entre eles.
2o. De forma nenhuma, o violão é um sucessor do alaúde, pois tal instrumento se extinguiu, restando apenas reconstruçoes. Ele sofreu muita perseguiçao da inquisiçao por ser de origem Turca.
3o. A vihuela da Espanha, no periodo renascentista, é exatamente igual a um alaúde, mas no corpo de guitarra, pois a igreja nao permitiu a entrada do alaúde na Espanha.
4o. Existe grande proximidade entre o violão e a guitarra baccoca. Instrumento com cinco ordens (cordas duplas) as quais eram afinas de forma parecida com o violão e que muito provavelmente, foi acrescida da 6a corda e acabou virando a guitarra romantica/classica, e evoluindo para a guitarra moderna.

Acho que diante destes fatos, não cabe nem compararmos técnica, repertório e esse tipo de coisa. Os instrumentos da familia do alaúde, por exemplo, usava-se a "figueta" para tocar, com o dedo minimo apoiado no tampo. Unha, nem pensar... Isso porque fica praticamente impossível tocar as cordas duplas simultaneamente com uso de unha. E mesmo que consiga, o som não vai ser nada parecido com os ideais de estética musical da época.

Grande abraço a todos
Estou de volta!! eheheh
(allstarstyle, Nick, Luis Gontarski)

Luis Gontarski
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Mensagem por Luis Gontarski » Ter 23 Jan 2007, 14:34

p.s.
para conhecer alguns instrumentos antigos, entrem em http://www.lucianofaria.com .
Luthier paulista. 90% de seus instrumentos são para exportação.

FernandoSor
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Mensagem por FernandoSor » Ter 23 Jan 2007, 19:33

Legal suas observações. Mas cuidado ao simplesmente ignorar outras visões ou tomar qualquer coisa que alguém fala como verdade absoluta.
Luis Gontarski escreveu: 1o. Violão e Alaúde nem mesmo são da mesma família. Quanto mais querer comparar tecnicas entre eles.
Acho que dá para aprender até comparando técnica de violão com piano, quanto mais alaúde. Pode não ser da mesma família, mas não deve ser menosprezado.
Luis Gontarski escreveu: 3o. A vihuela da Espanha, no periodo renascentista, é exatamente igual a um alaúde, mas no corpo de guitarra, pois a igreja nao permitiu a entrada do alaúde na Espanha.
Pois é, a vihuela teve influência no surgimento da guitarra barroca.
Então o alaúde e o violão não são tão distantes assim...
Luis Gontarski escreveu: 4o. Existe grande proximidade entre o violão e a guitarra baccoca. Instrumento com cinco ordens (cordas duplas) as quais eram afinas de forma parecida com o violão e que muito provavelmente, foi acrescida da 6a corda e acabou virando a guitarra romantica/classica, e evoluindo para a guitarra moderna.
A figura abaixo mostra de modo bem legal a "evolução" do violão. Está no site do Denis Cinelli, especialista na história do violão:
http://www.cinellimusic.com/GuitarFamilyTree_large.jpg
Luis Gontarski escreveu: Acho que diante destes fatos, não cabe nem compararmos técnica, repertório e esse tipo de coisa.
Discordo, afinal tocamos o repertório do alaúde no violão (Bach, Weiss etc.).
Luis Gontarski escreveu: Os instrumentos da familia do alaúde, por exemplo, usava-se a "figueta" para tocar, com o dedo minimo apoiado no tampo.
Na vihuela tbém...
Há quem use figueta ao tocar obra para alaúde no violão, para tentar dar o mesmo "sotaque" do alaúde. Não concordo muito com isso, mas acho importante entender como um alaudista digitaria a música que vc tocará no violão (como as suites do Bach). Isso dará uma boa idéia de acentuação ritmica, fraseado etc.
Luis Gontarski escreveu: Unha, nem pensar... Isso porque fica praticamente impossível tocar as cordas duplas simultaneamente com uso de unha.
Já toquei alaúde com unha e não tive nenhum problema. Num link que citei anteriormente é mostrado documentos da época em que cita-se o uso de unhas.
O Bream tocava com unhas...
Tbém prefiro alaúde tocado sem unha. Se eu fosse alaudista certamente tocaria sem unha. Mas nada impede de alguém tocar com unha e conseguir bons resultados. Ou um violonista, por exemplo, que toque violão e alaúde ao mesmo tempo e opte por unhas.
Luis Gontarski escreveu: E mesmo que consiga, o som não vai ser nada parecido com os ideais de estética musical da época.
Bom, se for para seguir isso ao pé-da-letra, teríamos que cortar as unhas para tocar Sor e Tárrega tbém (pois ambos eram totalmente contra o uso das mesmas).

Bem, é o que penso.
Abraço.

Luis Gontarski
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Mensagem por Luis Gontarski » Qua 24 Jan 2007, 14:55

Grande Sor
Concordo com você em alguns aspectos.
Só acho que, deve-se ter uma idéia fixa na cabeça.
Tocar repertório antigo no violão não tem problema algum, inclusive acho que maior parte do nosso repertorio é transcrito. Mas deve-se pesquisar e decidir se vai fazer uma interpretação contemporânea, com técnica e interpretação moderna ou vai tentar se aproximar do ideal estético musical descrito nos tratados da época.
Não vejo problema em nenhuma das duas decisões, desde que seja conciente.
Quando falei a respeito do som, quis dizer que, com a técnica que focamos hoje, tentamos cada vez mais igualar o timbre entre os dedos e é exatamente o que a figueta não proporciona, ja que o polegar agindo com a força da gravidade terá um timbre muito mais cheio que o indicador, reforçando a idéia de nota nobre ou vil.

grande abraço

FernandoSor
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Mensagem por FernandoSor » Qua 24 Jan 2007, 16:12

Luis Gontarski escreveu: Quando falei a respeito do som, quis dizer que, com a técnica que focamos hoje, tentamos cada vez mais igualar o timbre entre os dedos e é exatamente o que a figueta não proporciona, ja que o polegar agindo com a força da gravidade terá um timbre muito mais cheio que o indicador, reforçando a idéia de nota nobre ou vil.
Mais ou menos. Experimente a figueta no alaúde e depois no violão. No alaúde, que usa cordas com tensão bem baixa e tem um som mais "sutil", só mesmo com uma boa figueta para conseguir acentuar o que vc quer, pois a diferença no toque tem que ser bem forte para conseguir acentuar alguma coisa. O som do alaúde já é "neutro". É só ouvir, que tem vários alaúdistas que usam figueta e não conseguem acentuam nada...
Enquanto no violão, que é um instrumento com sonoridade bem diferente, é muito fácil mudar a acentuação, até com maior intensidade, sem usar figueta.

Mas como vc mesmo disse, é importante um violonista saber como um alaudista digitaria (com figueta), para saber onde acentuar. Porém não acho que um violonista necessite tocar com figueta. No violão dá para acentuar muito mais sem usá-la.

Sobre a técnica do violão de tentar igualar o timbre dos dedos, é para desenvolver controle e ter a capacidade igualar qdo vc quiser. Dentro de uma música, em muitos casos, eu quero mesmo é que fique diferente. Ahhh, saudades do Bream e do Segóvia...

jay_jay

Mensagem por jay_jay » Sex 02 Mar 2007, 14:06

As obras de Bach, não so as para alaúde como também qualquer outra, parecem ter sido feitas especialmente para o violão. Será que esse gênio previu isso algum dia? rsrsrs

FernandoSor
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Mensagem por FernandoSor » Sex 02 Mar 2007, 16:11

jay_jay escreveu:As obras de Bach, não so as para alaúde como também qualquer outra, parecem ter sido feitas especialmente para o violão. Será que esse gênio previu isso algum dia? rsrsrs
O estilo composicional do barroco era próprio para a transcrição. A transcrição era muito comum na época. O próprio Bach fazia versões para vários instrumentos (como a suite 4 para alaúde e a partita 3 para violino solo).

Porém discordo que tudo fica bom no violão. Acho que em algumas transcrições perde-se bastante com a falta de baixos mais graves no violão, como a suite 3 para alaúde (BWV995).

jay_jay

Mensagem por jay_jay » Sex 02 Mar 2007, 16:24

jay_jay escreveu:Porém discordo que tudo fica bom no violão. Acho que em algumas transcrições perde-se bastante com a falta de baixos mais graves no violão, como a suite 3 para alaúde (BWV995).
bem , quando falei tudo estava falanso apenas de uma maneira mais gereralizadora... claro que nem tudo vai poder ser transcrito sem perder algo. Toda a riqueza da composição só se pode alcançar quase sempre no intrumento ariginal.

Dimas Edson Ferreira
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Mensagem por Dimas Edson Ferreira » Seg 12 Mar 2007, 22:02

não podemos nos esquecer de que o alaúde possuia mais cordas de uma forma ou de outra complica um pouco mais para executar em 6 cordas


estudem Gaspar Sanz e Silwius Leopold Weiss eram grandes alaúdistas

FernandoSor
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Mensagem por FernandoSor » Ter 13 Mar 2007, 12:27

Dimas Edson Ferreira escreveu:estudem Gaspar Sanz e Silwius Leopold Weiss eram grandes alaúdistas
O Gaspar Sanz tocava guitarra barroca, que é bem diferente. O alaúde praticamente não era usado na Espanha.

Carneiro
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Mensagem por Carneiro » Dom 20 Mai 2007, 09:57

Luis Gontarski escreveu:p.s.
para conhecer alguns instrumentos antigos, entrem em http://www.lucianofaria.com .
Luthier paulista. 90% de seus instrumentos são para exportação.
Excelente dica. A página é repleta de instrumentos de época.

otaviosp

Mensagem por otaviosp » Ter 22 Mai 2007, 18:50

Vivendo e aprendendo. Não sabia desse problema do Alaúde na Espanha. Mas, suponho, que até 1.492 não deveria haver problema em sua utilização, já que o sul da Espanha ainda era controlado pelos arabes.

Quanto ao tema do tópico, sou favorável às transcrições, já que é um período muito rico que seria relegado ao abandono se não fosse pelo violão.

Interpretações de época me soam anacrônicas. Apesar da boa vontade dos intérpretes, não se pode esquecer que tudo é diferente hoje em dia, principalmente as pessoas.

tiago_maus
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...

Mensagem por tiago_maus » Qua 18 Jul 2007, 18:43

o violao é um intrumento relativamente novo...
seu uso teve inicio na epoca do romantista.
ate entao as peças eram escritas para instrumentos de ordens duplas como o alaude, tiorba, vihuela e afins.

sirenas

Transcrições alaúde - violão

Mensagem por sirenas » Dom 05 Ago 2007, 13:03

Todo violonista deve conhecer as obras históricas nos diversos períodos da música até como forma de aprendizado musical. O renascimento e o barroco são redutos de obras musicais muito interessantes tanto no aspecto melódico, polifônico e harmônico.
As transcrições são importantes nesse sentido, e deve-se conhecer as variadas formas de tablaturas: italiana, espanhola, francesa, inglesa e alemã.
Algumas peça podem ser tocadas sem a afinação da 3ª em fa#, enquanto outras soam melhor no violão nessa scordatura.
Alonso Mudarra, Miguel de Fuenllana e Adrien le Roy escreveram peças para a guitarra renascentista de 4 ordens. O alaúde e a vihuela reinam soberanos com um manancial de tratados muito maior.
Fantasia VII (Dowland), Monsieurs Almayne (Batchelar), 7 variações s/ Guardame las Vacas (Narváez) e Fantasia X (Mudarra) são peças que podem muito bem fazer parte da prática diária de qualquer violonista.
Abraço!